
Há encontros e encontros. Um dos que mais aprecio é quando tropeço com um livro ruim.
Não blasfemo contra a boa literatura, não me revelarei incendiário de livros. Não sou nazista, integralista ou totalitarista. Sou contra fogueiras santas, e livros como os de Saramago, Joyce, Jorge Amado, Lobato, etc, sagrados são.
Mas quando encontro um livro ruim, me regozijo. Mesmo.
Não faço coro com os que desprezam Nelson Rodrigues, Alexandre Dumas, Emily Brontë, Elmore Leonard. Literatura de mistério, policial, noir, de bolso e pulp é a base da cultura pop.
Os livros ruins que encontro, ora bolas, são para mim. Podem ser ruins para mais alguns, mas sempre, tão somente, para mim. Ou seja, me repetindo, ao contrário: Não são para mim.
São livros de economia avançada, culinária séria, programas de informática, auto-ajuda. Quando os vejo, sinto uma crescente alegria, como se fosse rir de alívio.
Olho para suas capas bonitas e lastimáveis, e percebo a sorte que tenho de não precisar lê-los, e fecho os olhos no exercício de imaginar-me dedicando o mesmo tempo na leitura de outras obras, muito mais saborosas, recheadas de existencialismo pixote, de candura retraída, de aventura romântica, ou mistério insolúvel.
Livros ruins me libertam.
O Coelho branco, um dos primeiros executivos estressados de que temos notícia, vivia como nós, de olho no relógio, vendo as horas escorrerem ágil e inescrupulosamente, tal a tela de Salvador Dali.
Mesmo no País das Maravilhas havia a pressa, o dever do prazo, a passagem inegociável do tempo.
Nas editoras, a todo momento aproximam-se e explodem os deadlines, os prazos para a entrega dos esboços, dos capítulos, dos livros inteiros.
Escritores mantém um dos olhos na folha em branco (ou tela em branco do word) e o outro nos personagens, nas situações, ou mesmo nos fatos, os que circulam na não-ficção. Alguns atingem a iluminação necessária para o terceiro olho, o qual usam para enxergar não só o relógio, como também o calendário, os resumos de vendas das editoras e outros indicativos financeiros.
Foi dito e talvez superado, que o ato de escrever demanda tempo. Dito fora que o fruto das palavras é de difícil cultivo, passa por entressafras, e demora a crescer. Mas ele, em algum momento, brota.
Porém, está além da pressa, da agilidade, do prazo e mesmo do tempo, um fenômeno (embora se repita) verificado em escritores: A inspiração.
É um fenômeno que transcende o ato de criar. Embora o texto literário só fique pronto após a edição e a revisão, a inspiração inicia o ato, ou o fecha. E também trabalha durante, entre suas linhas.
Graças a ela, pude ir contra a pressa, o prazo eo deadline de 13 de setembro de 2009. Atravessei a madrugada desse mesmo dia, e na Bienal do Livro pude entregar, no estande da Editora Hama, Prezado Leitor, o texto que integra o livro "Contos de Todos Nós", cujo lançamento será amanhã. Assim, convido você a conhecer os 20 contos vencedores dessa iniciativa da editora, de produzir e lançar um livro na mesma bienal. ;)

O futuro jamais chega, mas virou tendência decretar a morte das visões ficcionais de futuro, sob o pretexto de que não há mais nada a ser criado ou imaginado que já não esteja previsto nas mirabolantes teorias quânticas e unitaristas.
'No future', lema dos Sex Pistols décadas atrás, parece ecoar novamente nos niilistas travestidos de realistas. Estes dizem agora que tudo é possível, mas não sabem o que esse 'tudo' será, obviamente. E sentam-se em suas cadeirinhas de balanço enquanto esperam a ciência seguir seu curso.
Mas a ciência é feita de ideias. E a Ficção-Científica pode ser um manancial para a ciência, pode criar desafios, objetivos para os cientistas.
Ou pode, simplesmente, ser escapismo, histórias cheias ou vazias de esperança. No homem, na ciência, no divino.
Como entusiasta dessa forma de ficção, enxergo um 'futuro' magnífico pela frente, onde, além de máquinas maravilhosas que viajam no tempo, no mar e no centro da Terra, haverão histórias em que os homens estarão dentro e fora dos limites do universo, do tempo, daquilo que separa eu de você, na linha tênue da individualidade, do existir, do significado de ser.
Autores marginais, há algum tempo, provocam tais limites, e, atualmente nos quadrinhos, autores como Warren Ellis e Grant Morrison espalham as sementes para a iluminação de questões éticas e práticas que permeiam tabus, como engenharia genética e dimensões paralelas.
Se o celular, o teletransporte, o avião e outras invenções, antes de implementadas, foram criadas na ficção pela mente de escritores, quais serão as ideias escritas hoje que se tornarão realidade nas próximas décadas e séculos?
Peguem seus lápis e teclados e decidam.
Alan Moore arquitetou, nos roteiros de
Watchmen, as características que ao longo dos anos seu público considerou como inadaptáveis para o cinema.
A extrema complexidade das relações entre os personagens, às vezes traduzidas apenas no gestual, as sutilezas das transformações sócio-culturais resultantes da existência de um ser super-poderoso entre os homens, a noção de tempo do
Dr. Manhattan, a profundidade dos personagens, amparados em textos de apoio à Hq, refletindo publicações existentes no contexto da trama, dentre diversos outros aspectos que exigem mais de uma leitura, e que se apresentam plenos no formato de história em quadrinhos.
O que dizer então da adaptação para as telas da HQ, a qual
Alan Moore, radicalmente contra, exigiu que não tivesse seu nome inserido dentre os créditos?
Eu, por exemplo, posso dizer que é: 1) Uma grande homenagem a
Alan Moore; 2) Veículo para debate de algumas questões polêmicas, controvertidas e multifacetadas do quadrinho, de modo a reacendê-lo para as novas gerações; 3) Poderoso artigo de divulgação do quadrinho, de modo que, como uma revista em movimento, e valendo-se do estilo do cineasta, incentiva o espectador a conhecer a obra.
Tudo bem que, nas telas, Watchmen peque pela correria narrativa, pela atribuição de força quase sobre-humana aos vigilantes e pela supressão de inúmeras sub-tramas do original, que, contudo, obviamente seria impossível de se reproduzirem num único filme.
Porém, há no filme um enorme acerto: Se você leu e gostou da minissérie, apesar de, assim como eu, localizar as falhas, elas não atrapalharão em nada o espetáculo para os sentidos que você saboreará.
Sim, seus ouvidos se deleitarão em socos desferidos e vozes de heróis que possivelmente soarão familiares. E com a trilha sonora, tão boa quanto a de um filme do Tarantino, com clássicos nada óbvios dos 80, Sinatra e ainda a Cavalgada das Valquírias, de Wagner.
Seus olhos verão o mundo simetricamente anacrônico e niilista criado por Alan Moore e Dave Gibbons, verão as fantasias berrantes e profanas, verão as cores lúgubres de John Higgins a luz azul e o despudor do Dr. Manhattan.
E sua mente se deleitará. Atenta aos detalhes, ela verá mais que a ação violenta mostra. Ela verá os quadros e as fotos antigas, as luzes e objetos reproduzidos da minissérie, e principalmente, você pela primeira vez verá um filme de heróis refletindo sobre questões que transcendem o humano, na visão do Dr. Manhattan, e questões que são profundamente humanas, como a virilidade sexual de Dreiberg/Nite Owl e os traumas de Roscharch.
Um filme absolutamente para adultos, e infelizmente, creio que um pouco hermético para quem não leu a obra. Imagino que o espectador que não leu, com algum esforço, perceberá que, na trama do filme, houve uma cena de super-heroísmo por volta de 1940, e que na atualidade tal heroísmo se encontra proibido. E que o Dr. Manhattan garante a superioridade militar americana, mas não suprime o profundo estresse da Guerra Fria, que esquenta a cada minuto que passa. Assim como o espectador que não leu igualmente perceberá que a trama principal é o assassinato de um antigo vigilante que trabalha ou trabalhou para o governo. Um cara controverso, e mesmo mau, mas envolvido, pelo bem e pelo mal, na política do último século, assim como o Dr. Manhattan.
Embora, como eu disse, o maior mérito do filme seja a diversão que ele provoca ao dar vida a elementos que nos surpreenderam tanto na trama original, também não é nada mau a interpretação que os realizadores fazem de Watchmen. Aberta a leituras, a obra de Moore e Gibbons dá ensejo até hoje a reflexões filosóficas, sócio-políticas e mesmo comportamentais.
Após o filme, passei a ver de maneira nova aspectos da hq. Parece que a relação entre Ozymandias e Dr. Manhattan é a representação perfeita da relação entre o Super-Homem e Lex Luthor da fase bilionário industrial.
Assim como Luthor, Ozymandias é a pessoa mais inteligente de sua era, e anseia por conquista de impérios, seja financeiro ou outro qualquer. Ambos idealizam a própria imagem, e a chegada do Super-Homem/Dr. Manhattan representa para eles a maior de todas as ameaças.
Para Lex Luthor, a ameaça sempre foi do ponto de vista pessoal, pelo fato do kriptoniano, por seus poderes e função na sociedade, ser o único a estar um patamar acima dele.
Para Ozymandias, mais calcado na realidade, o Dr. Manhattan não era ameaça, e sim ao mundo. Assim, todas as opções que fez, como a construção do império financeiro, em cima de sua imagem de antigo vigilante, os estudo de táquions, etc, o fez para impedir os acontecimentos futuros decorrentes da simples presença do Dr. Manhattan na geopolítica, que obviamente sua inteligência superior previu.
Posição do filme que pôe em cheque hoje (como Alan Moore o fez décadas atrás), a possibilidade da existência de vigilantes mascarados e superpoderosos em nosso mundo sem alterá-lo profundamente.
Assim, mesmo sem superpoderes, pessoas obstinadas, insanas ou degeneradas a ponto de vestir um colante colorido para combater o crime modificariam nossa realidade, ainda que servisse apenas como inspiração à nosso sentimento de Justiça.
Nessa ótica, Rorschach e o Coruja dividem antagônicas visões de um mesmo ícone, o Batman. O Coruja, como o herói humano ao extremo, romântico, inteligente e inventivo. Rorschach, como o anti-herói humano ao extremo, pragmático, esperto e violento. Numa simplória divisão, Coruja seria a era de prata do Batman, com os aparatos, a ficção-científica e um certo glamour. E Rorschach, com o de Neal Adams, Denny O’Neill e Frank Miller (ainda que não tivesse feito Dark Knight antes de Watchmen), com os traumas, a selvageria, a crueza e a adoção da máscara como verdadeiro eu.
A certeza de que o Rorschach da minissérie se tratava, na verdade, do Batman, se deu no fim da sessão. Rorschach, que se recusava a calar-se diante do genocídio de milhões de pessoas é o mesmo herói que, na saga do universo da editora DC Comics, chamada Crise de Identidade, sofreu lavagem cerebral dos demais integrantes da Liga da Justiça por recusar-se a praticar lobotomia em supercriminosos para incapacitá-los.
Aliás, salvo melhor juízo, a solução escolhida pelo filme nos ataques de Ozymandias às capitais mundiais, responsabilizando o Dr. Manhattan, foi mais objetiva e funcional.
Disso tudo, o saldo fora imensamente positivo. É certo que cada edição individual de Watchmen abasteceria um longa-metragem diferente. E, se a tecnologia de efeitos visuais estivesse mais barata e avançada, seria mesmo possível uma minissérie para a tv ou o cinema, no estilo de superproduções como Band of Brothers.
Mas, do que estou reclamando? Talvez eu somente queira mais. A adaptação realmente valeu a pena, é um cult travestido de blockbuster, cheio de imagens a serem melhor degustadas nas próximas vistas, assim como a hq, e com um novo filme ainda por vir. Ou você duvida que a versão estendida do diretor (com a subtrama do jornaleiro, dentre outras) não será um filme totalmente novo? (Aposto que a cena na qual Dreiberg e Jupyter visitam Mason irá aparecer, por exemplo.)
Meses atrás, quando o cinema do Nova América e eu aplaudíamos O Cavaleiro das Trevas, e em revistas e sites pessoas agradeciam por ter vivido para ver o antológico filme do morcego, eu me perguntava se um filme de heróis conseguiria transcender o nicho de gênero cinematográfico de super-heróis e chegar tão alto quanto ele.
Watchmen encosta e emparelha. Como filme, academicamente falando, talvez não seja inteiramente perfeito e compreensível para não fãs. Porém, como documento, como experiência, como elo perdido entre cinema e hqs, e mesmo como cult e, por que não?, como diversão, com toda certeza foi o que chegou no Olimpo da cultura de massa.
Você fica tenso, sorri, canta, talvez até chore ao longo de suas três horas que não se sentem passar. No fim, ao sair da sala de projeção, acontece algo não muito comum nos dias de hoje: você ainda se lembra do filme. E se você levar alguém para trocar idéias depois da sessão, tanto melhor: O filme também te faz refletir. Sobre referências ao onze de setembro, Governo Bush ou mesmo sobre os quadrinhos. Sobre o futuro e o passado deles. Watchmen, e todos os outros.
Pode ser escapismo, pode ser papo-cabeça, pode ser relevante ou tudo pode ser apenas ridículo. Não importa: Não sei quanto a você, mas estou louco para ver de novo.
Levante a mão do mouse quem nunca pegou ou se desviou daqueles indefectíveis folhetinhos de propaganda distribuídos mano a mano no Centro?
Desconfio que não sou o único a ter uma relação de carinho e nostalgia pelos papeizinhos de "Dinheiro já", "Compro ouro"e "Joga-se búzios", dentre outros menos cotados.
O papel de baixa gramatura e qualidade, as cores fortes e borradas, ou mesmo o impacto das letras grandes e objetivas quando em preto e branco... É o que me fascina nestas pequenas gravuras que cabem na palma da mão.
Um folheto em especial me chamou a atenção. Mas não pela beleza vinda do excesso (quase barroco), e sim pela palavrinha que você vê logo no topo da foto que ilustra esse post:
“MOÇA”
Longe de mim ser entusiasta do militarismo, mas quem não se lembra que há pouco só havia em anúncios como esses algo do tipo: "Jovem - Você que completará 18 anos..." ?
Embora ainda não estejamos num cenário ideal de igualdade entre os sexos, é importante e gostoso de ver que hoje uma mocinha pode muito bem servir num ambiente ainda predominantemente masculino se lhe der na telha.
Que o dia 8 de março de 2009 seja muito feliz, não só para a MOÇA do folhetinho, mas para todas vocês ;)